Saturday, December 26, 2009

EXISTIR EM ARCO-ÍRIS nº 2

A capa do álbum The dark side of the moon proporciona ao ouvinte, já quase bêbado na presença iminente da grande e misteriosa bolacha negra do elepê de Pink Floyd, uma experiência visual inesquecível. Numa área quadrangular de aproximadamente novecentos e sessenta centímetros quadrados, um facho estreito de luz branca vindo da esquerda atravessa a escuridão para tocar o lado de um triângulo eqüilátero, apenas esboçado por uma luz difusa e indireta, proveniente de alguma fonte externa cuja posição e forma não é possível identificar, posto que apenas delineia por dentro, em cinza azulado, os três lados da figura. Não fosse o fato de o triângulo ter seu circuncentro localizado um pouco acima do ponto de encontro das diagonais do quadrado da capa, dir-se-ia que ele está situado bem no centro de toda a composição. Não obstante, presume-se que a figura, com seus lados traçados pela claridade de um improvável luar, corresponderia a uma das faces sólidas de um prisma, de modo que ao tocar seu primeiro lado, o facho de luz começa a se decompor em refração por detrás da superfície triangulada, novamente refratado ao tocar o lado oposto da figura, retomando o percurso na escuridão que segue para além do triângulo, agora fracionado nas cores do espectro, ou em seis delas, posto que não aparece o anil entre o azul e o violeta, alargando-se conicamente, enfim, até a borda da capa do disco. Tenho-a comigo bem guardada ainda, a capa protegida por um grosso envelope plástico transparente que evita as manchas, inclusive a própria digital dos dedos suados de um improvável espectador: ela está impecável, a despeito de seus exatos trinta e seis anos de edição. Dito isto, retiro o plástico que protege o papel e ela se desdobra em duas, formando um retângulo de mesma altura e base agora duplicada, reproduzindo do outro lado a mesma figura da primeira capa invertida e ligeiramente ampliada. No conjunto, o mesmo facho de luz encontra as duas faces distintas de dois prismas – à direita e à esquerda – que ao refratá-lo, produzem a separação da luz em cones de cores espectrais. As páginas internas da capa trazem, no alto e à esquerda, a relação das músicas (Side One: 1 Speak to me; 2 Breathe; 3 On the run; 4 Time; 5 The great gig in the sky. Side Two: 1 Money; 2 Us and them; 3 Any colour you like; 4 Brain damage; 5 Eclipse, com a devida indicação de autoria) e a composição da banda (David Gilmour, Nick Mason, Richard Wright e Roger Waters, com seus respectivos instrumentos); à direita, a ficha técnica do disco. De uma ponta à outra essas páginas centrais são divididas em duas por uma faixa cromática horizontal que parte precisamente do lugar onde os cones espectrais tocaram a borda das capas externas. A linha verde, quarta linha de cima para baixo, pulsa em quatro pontos regularmente eqüidistantes, à maneira de um registro cardiográfico. Finalmente, a parte de baixo dessas páginas de capa trazem as seis letras cantadas (A 1 e 4; B 1, 2, 4 e 5), sendo que as outras quatro são músicas instrumentais. Oh, admirável mundo pós-moderno esse em que espaços e tempos se comprimem na virtualidade de uma longa, furiosa, interminável multiplicação de coisas e instantes! A capa correspondente do compact disc, editado cerca de vinte anos depois, é uma pálida recriação daquele primeiro elepê, trocando a exuberância mágica do original (que os olhos não dão conta por inteiro de um relance) por ganhos líquidos de informação e imagens de computação gráfica, recolhidos num encarte de vinte e quatro páginas condensadas em escassos cento e quarenta e quatro centímetros quadrados de área, em todo caso disponível para que o vinil repouse serenamente, e para sempre, na seção de obras raras, na memória silenciosa das minhas retinas.

Thursday, December 17, 2009

EXISTIR EM PRATA

Prata é a cor natural do brilho, sem artifício. É substância e adjetivo, um bungee jump que sem querer nos livra do abismo. Ali pelos vinte anos blue, quando não entendia direito o significado que os dicionários não guardam para a palavra dispnéia (posto ser aquilo de que a existência nos priva, uma felicidade com limites, uma plenitude sem força), ganhei de minha mãe um cordão de prata, o que ganhei? Um ansiolítico mineral, um adereço de alma, uma potosi de ternura? A matéria de moldar uma das primeiras e mais primitivas poesias? O que disse minha mãe, na verdade, ecoa ainda no silencio auspicioso de toda prata: a ave e o presságio, também a promessa e o vôo...

Sunday, December 13, 2009

BOA VIAGEM

(I)

Ela era reconhecida nas redondezas. Aquela figura negra, franzina e frágil de moça, a aparência feminina de cabelos na tintura, um cinza mal dissimulado de pelos sob a massa de pó de base, no fundo do tempo que a geral aparência cuidava de ocultar, talvez ignorar, bem lá no fundo daqueles olhos mortiços e sem cílios, à exceção dos conhecidos, não havia quem descobrisse sem susto, remotamente, ao avesso das evidências, na pele dela um homem. Sedutor e arrojado, um homem encarando todos os homens, capoeira de pernas finas e ligeiro nos passos, encará-lo também talvez levasse a aceitar o desafio ou o convite proposto no papel dele pela mulher oculta. Bem conhecida a bicha não era; conhecida, talvez; reconhecida, sim, quase sempre.

(II)

A municipalidade, a associação de moradores, os prédios e as casas convencionaram que o lixo do bairro, ensacado e reunido num amontoado discreto nas calçadas, seria recolhido dia sim, dia não pelo caminhão. Esqueceram de incluir a cachorrada, os moradores de rua, as crianças vadias e o pessoal do morro no combinado. Julgando implícita a generalidade do acordo, de fato ninguém concordava que o lixo fosse revirado, por isso alguns evitavam, outros fingiam ignorar e uns poucos, agressivos, se indignavam com todos aqueles seres que o caminhão, na pressa dos garis ao lusco-fusco do final de tarde, se quisesse poderia levar.

(III)

Quando eu morrer, acho que levo meus textos comigo. Por isso hei de fazê-los bem leve, para que não pesem na alfândega, e que passem no teste dos éteres. Ou, se não levá-los, não me vou por inteiro: deixo neles um pouco de mim, respirando pão de padaria e cheiro de maresia no oxigênio da Boa Viagem. Levemente e para sempre.

(IV)

Mata tem motor? Acordei no escuro com o apito no morro verde funcionando. Eram cigarras.

(V)

A bichinha saiu do monte de lixo sem mãos para tanto embrulho: o azul aprisionado no garrafão vazio, o brilho cantante do cd quebrado, a prata dos fios de embrulho e o metalizado no papel de presente, o passado rack de uma caixinha de madeira, caloria de meio hamburger e a mordida interrompida no excesso, mil e uma utilidades e um grave erro de entrega em cada objeto feito sob medida para o cantinho que habitava.

(VI)

Multado pela prefeitura, o caminhão do lixo teve trabalho pesado de manhã.

Friday, December 04, 2009

EXISTIR EM CORES PRIMITIVAS

O quadro Cena Campestre, um óleo sobre madeira de 27 x 36 cm, de Ernane Cortat, datado de 1986, é obra em estilo naïf de um artista relativamente pouco conhecido do público e do mercado. Seu paradeiro ignorado e informações desencontradas dão notícia de um destino trágico, entre a loucura e a morte por indigência, de febre, fome e frio. O quadro é pequeno e exuberante, ao mesmo tempo. Só depois que os olhos renunciam à vã tentativa de capturar num só relance a cena inteira, em sua abrangência cromática e narrativa, é que, de fato, ela se mostra no inumerável de seus signos dispostos sobre fundo preto. O observador situa-se aquém de um riacho de águas excessivamente azuis, embora os quatro quintos restantes de toda a composição se passem do outro lado, com acesso apenas por via de uma bucólica pontezinha de beirais brancos. O vasto painel de sociabilidade e trabalho no campo constitui o eixo principal, senão exclusivo, da narrativa. Olhando mais de perto, no entanto, o que parecia uma inumerável exposição de signos não o é senão pelo artifício da repetição e da inversão de sentidos e cores sobre um número limitado de figuras semelhantes: o pequeno rebanho de um gado malhado em branco e marrom, mais ou menos disperso pelo pasto; uma criação de galinhas brancas ciscando no terreiro fronteiro à construção mais ampla; o aglomerado de casinhas simples de porta-e-janela sugerindo um povoado e seus arredores; dois bosques pequenos de pinheiros de variadas cores numa paisagem de resto sem outra qualquer vegetação; três cata-ventos altos lembrando torres de transmissão; uma lua redonda e amarela no centro e ao alto, levantando-se por acima do bosque que emoldura o alto da paisagem; homens e mulheres em três situações distintas, uns carregando na cabeça grandes tabuleiros com frutas empilhadas, em formato piramidal, outros apoiando nos ombros o comprido cabo de uma enxada, e alguns ainda que embora não mostrem a ocupação no ir e vir constante, parecem consumidos em laboriosa faina. As cores emprestam à cena um ambiente de celebração e festa. Recolhido diretamente do acervo pessoal do autor, ali pelo início da década de 1990, o quadro aparece reproduzido na capa do primeiro livro de um poeta menor, publicado pelo Clube de Literatura Cromos, em Niterói-RJ, sob o título de Inventário de Tudo, sugerindo minuciosa descrição de bens, dedicado com palavras amorosas a uma Cleir do Valle, sincretismo de Eva bíblica, musa pagã e, a julgar pelo erotismo de alguns versos, mulher simplesmente, de carne e osso.

Wednesday, December 02, 2009

EXISTIR ECOANDO AZUIS

Marinho, celeste, azuis tão inconstantes... Não esse azul prático, laqueado e sem sombra na pintura dos automóveis. Não o pigmento primitivo e simples no tecido do verão, mas os falsos azuis. Azul da delicada estrela azulada que Gagarin viu primeiro na minúscula escotilha da Vostok (cujo nome a sabedoria popular imortalizou numa miríade de circos com trapezistas solteiras e palhaços tristes). O vago azul da nebulosa Crab, abismo de poeira e gases no espaço infinito, profundo azul marmóreo ecoando na superfície lunar, azul intangível na carne do peixe, cuja resistência mansa Mario encontrou na presença da amiga, sensual sem sexo. Um dia, num futuro não muito distante, talvez definitivamente, o sexo será azul. Como azuis restaram as madrugadas, no oco da memória, depois de uma viagem muito longa num ônibus todo azul, pouco antes do primeiro sol cruzar o céu de Itaperuna, em vias de azular, e o medo que trago comigo de jamais tornar a vê-las. O medo, cuja textura, aliás, também é azul.

Monday, November 30, 2009

EXISTIR EM NEGRO

Ou, para alguns, nem existir. Aprendi que o preto é ausência de cor e que ausência mistura-se com perda, confunde-se com luto, a face mais visível da dor por dentro e por fora. Também aprendi o quanto seduz o negro, pelo que não se mostra e pelo que obstinadamente quer mostrar, cultuando suas próprias cores no recesso da luz. É no escuro que o fotógrafo faz convergir seus varais em paralelas impossíveis. Na inflorescência dessas nenhumas cores lembrei de Cláudio; ele era assim, sedutoramente negro nas roupas e nos dentes, ensinando filosofia entre assovios nas cavernas míticas de nossas mentes obscuras, num período esplendorosamente trevoso daquelas vidas adolescentes, lá pelo final dos anos setenta. No alto das escadarias do ICHF, quase todo fim de tarde, lá estava ele, qual fênix negra recém chegada de indescritíveis tragédias ancestrais, reduplicando seus próprios temores, ao redor, ao longe e para sempre.

Tuesday, November 24, 2009

EXISTIR ENTRE VIOLETAS

Que cor meus olhos procuram na cor violeta, para quem convergem menos tristes, feito olhar mais comprido, que direção partilham no osso do esquecimento? Violeta que é cor e flor, textura e perfume, adorno improvável naquelas tardes quentes do grupo escolar, a professora ainda tão jovem, tão franzina, sempre de pé! A turma atrevida, só de meninos, desafia e sustenta olhares. Meus olhos erram, e de má conduta encontram, sabem-se lá porque erros, aqueles minúsculos caminhos de sangue sob a superfície branca de suas pernas. Mergulhando em direção aos pés, prosseguindo no que se imagina para além da barra do vestido, quase imperceptível (não fora arteiros e curiosos olhares que procuram...), aquela floração de violetas sutis que demora alguns anos para vir, depois não cessa jamais de florar. Numa tarde daquelas, outra professora de castellana pele e autoridade, numa cidadezinha qualquer, aprendera La Violetera no rádio antigo, sob entusiástica e imaginária aprovação de Sarita Montiel, que lhe atira de intangível distância um pequeno ramo de violetas naturais.