Saturday, February 10, 2007

DESTERRO

“Tenho tanta palavra meiga, conheço
vozes de bichos, sei os beijos mais violentos”
(Carlos Drummond de Andrade)

As cheias vieram como jamais se viu, porém o pronome se funcionando como partícula apassivadora, ao passo em que lança à indeterminação, quiçá por indiferença ou desgosto, o pálido sujeito, instaura na subjetividade comprometida de expressão duas dúvidas simultâneas quanto a Quem de fato sofre com a túrbida visão das águas que trazem o Paraíba em fúria, e quem não sofre posto que pratica a ação de ver como lânguida contemplação. Não sofro Eu na profundidade de onze metros e mais alguns dedos, que é o limite de saturação do velho dique, velho de um tempo que não conheceu a tragédia do aquecimento global e outros mais dramáticos problemas planetários. Não sofro Eu de haver precipitado as águas por cima de boa parte da planura do centro da Cidade, tomando posse de quase toda a extensão da avenida XV de Novembro e avançando por algumas artérias perpendiculares, e ainda mais além fazendo regurgitar as subterrâneas galerias de esgoto e pluviais et cetera.

Não sofro talvez porque não sofram minhas raízes aéreas afogadas no brejo encharcado de tanta chuva que virou e revirou inteiro esse janeiro nos Campos dos Goytacazes, se são aéreas minhas raízes pessoais, ainda que sofram solidárias ao comum sofrimento de quem perdeu casa e pertences, os mais escassos sobretudo, e humanas vidas. Posto que se são aéreas, ainda que molhem não conservam excessivas umidades, tampouco naufragam na avassaladora fúria dessas tisunamis de água doce, que também não me compraz calmamente contemplar do alto de platô algum, ou de mirantes edifícios agora muito mais comuns na paisagem urbana. De modo que, e finalmente deixando para trás as imagens climáticas de águas e cheias, que de resto não são o assunto dessas confissões, que também, por sua vez, não são rigorosamente confissões mas uma busca quase idiossincrática de reconhecer raízes, enfim, devo concluir que nem sofro nem deixo de sofrer com a condição do pronome se na primeira oração do parágrafo anterior. Assim fica dito.

O certo é que alguns acontecimentos recentes me fizeram sentir com sentimento intermitente, porém intenso, a estranha importância de toda essa história de raiz, fosse a morte inesperada do amigo Andral ou as prosas de memória com Norberto recordando lugares e personagens e acontecidos, mas sobretudo esta percepção existencial súbita de que estou só, ou melhor, de que estamos sós, Eu e minha Companheira, na extensão circular que vai daqui ali e volta somente aqui, de mim a ela e vice-versa, depois que os filhos cresceram e se foram primeiro um depois o outro, quiçá para nunca mais se isto quiser dizer que permanecem agora filhos de fora, olhando eqüidistantes a intimidade familiar ou inversamente enraizando na intimidade de si a distância agora irrevogável que nos separa, ou nos une, tanto faz, posto que finita e muito breve em face da compulsão de transpô-la. Cuidando bem a seu jeito cada qual de sua própria vida, este cuidar inclui a descoberta existencial da solidão, lá se vão eles, e também nós, minha Companheira e Eu, nos avistando de longe, como num filme em cinemascope, entre acenos com lenços e juras.

Vou-me embora pra Pasárgada, afinal, mas não quero a proximidade de reis, com licença Manuel, quero apenas que a terra aonde me venha a fincar as raízes, essa exigência mínima embora radicalmente telúrica da solidão, seja nada muito controverso e abstrato. Seria pedir muito esse Quero a minha terra que sinta minha, onde possa caminhar descalço e ferir a planta dos pés nos pedregulhos vivos e nus, recolhendo a dor com o prazer dos caminhantes qualificados pela raiz, pergunto e não obtenho resposta. Ando dizendo faz um tempo que tenho prazo fixado para ajeitar as coisas, vender imóveis quanto e se houver, principalmente quebrar o vento no móbile da imaginação a ver se não se precipita tudo ao mesmo tempo, que para tanto não há pensar que organize e dê jeito, mesmo porque não saberia administrar todas as muitas faces simultâneas da verdade eis que, de fato, como lá está no Tao te king, A verdade freqüentemente soa paradoxal, enfim, já ia dizendo, arrumar a casa e despedir dos amigos e silenciosamente partir.

Ah os amigos, esses que minha Companheira e Eu haveremos de perder, ou ganhar para sempre na lonjura da distância sem vencimento e na compulsão de vencê-la, como ficou dito a propósito dos filhos também, eles pode ser que não deixem a partida sem demandas, tão silenciosa e discreta, na qualidade sutil da manhã. Outros que nunca souberam que compartilhamos a cidade, inclusive os que deram causa ao solidário e anônimo sofrimento ao tempo das cheias e das perdas, quem sabe não estranharão a centelha misteriosa num deslocamento de ares, o sentimento indizível do arrancar um dente pelas mãos do dentista, a quase imperceptível rachadura na frágil estrutura do dia quando minha Companheira e Eu, depois de partidos os filhos, e não para nos rejuntar a eles, partimos também, e quem sabe não sintam agora, neste exato instante em que essas confidências, se é que o são, exalando-se de mim como na bruxa de Drummond, iludam a percepção sobre do que é que agita e está a romper a fina casca de equilíbrio e invulnerabilidade de suas vidas.

Além de você, ah, perdão, caríssimo leitor, e perdão aproveitado também para explicar que se não favoreço a leitura pela simplicidade do dizer sem delongas, é para prender um pouco mais a ela a afeição e o embaraço de uns poucos, talvez, que mais restarem.

5 Comments:

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Anonymous margarida said...

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Ah, como eu gostaria de saber escrever assim!!

Você e Cleir já pensaram em escrever alguma coisa juntos?? Hum... acho que seria o máximo!!!

:)

Beijos!!

2:47 AM  
Anonymous Rodrigo said...

Espero que não seja tão distante este lugar onde suas raízes aéras (suas e de sua companheira) irão se fixar.
Um abraço,
Amigo.

7:30 AM  
Anonymous Anonymous said...

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