EXISTIR EM CORES PRIMITIVAS
O quadro Cena Campestre, um óleo sobre madeira de 27 x 36 cm, de Ernane Cortat, datado de 1986, é obra em estilo naïf de um artista relativamente pouco conhecido do público e do mercado. Seu paradeiro ignorado e informações desencontradas dão notícia de um destino trágico, entre a loucura e a morte por indigência, de febre, fome e frio. O quadro é pequeno e exuberante, ao mesmo tempo. Só depois que os olhos renunciam à vã tentativa de capturar num só relance a cena inteira, em sua abrangência cromática e narrativa, é que, de fato, ela se mostra no inumerável de seus signos dispostos sobre fundo preto. O observador situa-se aquém de um riacho de águas excessivamente azuis, embora os quatro quintos restantes de toda a composição se passem do outro lado, com acesso apenas por via de uma bucólica pontezinha de beirais brancos. O vasto painel de sociabilidade e trabalho no campo constitui o eixo principal, senão exclusivo, da narrativa. Olhando mais de perto, no entanto, o que parecia uma inumerável exposição de signos não o é senão pelo artifício da repetição e da inversão de sentidos e cores sobre um número limitado de figuras semelhantes: o pequeno rebanho de um gado malhado em branco e marrom, mais ou menos disperso pelo pasto; uma criação de galinhas brancas ciscando no terreiro fronteiro à construção mais ampla; o aglomerado de casinhas simples de porta-e-janela sugerindo um povoado e seus arredores; dois bosques pequenos de pinheiros de variadas cores numa paisagem de resto sem outra qualquer vegetação; três cata-ventos altos lembrando torres de transmissão; uma lua redonda e amarela no centro e ao alto, levantando-se por acima do bosque que emoldura o alto da paisagem; homens e mulheres em três situações distintas, uns carregando na cabeça grandes tabuleiros com frutas empilhadas, em formato piramidal, outros apoiando nos ombros o comprido cabo de uma enxada, e alguns ainda que embora não mostrem a ocupação no ir e vir constante, parecem consumidos em laboriosa faina. As cores emprestam à cena um ambiente de celebração e festa. Recolhido diretamente do acervo pessoal do autor, ali pelo início da década de 1990, o quadro aparece reproduzido na capa do primeiro livro de um poeta menor, publicado pelo Clube de Literatura Cromos, em Niterói-RJ, sob o título de Inventário de Tudo, sugerindo minuciosa descrição de bens, dedicado com palavras amorosas a uma Cleir do Valle, sincretismo de Eva bíblica, musa pagã e, a julgar pelo erotismo de alguns versos, mulher simplesmente, de carne e osso.

1 Comments:
Essa Cleir é mesmo uma garota de Sorte...
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